CONSCIENTIZAÇÃO PARA A EQUIPE DE SAÚDE BUCAL ACERCA DO DESTINO ATRIBUÍDO AOS DENTES EXTRAÍDOS NAS UNIDADES DE SAÚDE DE FEIRA DE SANTANA-BA.
DOI:
https://doi.org/10.13102/jeuefs.v2i2.6049Resumo
Introdução
A existência de um Banco de Dentes Humanos (BDH) é essencial para o controle das infecções cruzadas, oriundas do manuseio indiscriminado de dentes extraídos para fins de ensino odontológico. Desse modo, o BDH desempenha um papel fundamental na saúde pública, uma vez que garante a preservação da saúde dos pacientes, alunos, professores e profissionais de saúde bucal (ENDO et al., 2017).
Logo, faz-se importante conscientizar a sociedade de modo geral quanto ao descarte dos elementos dentários e sua relevância para o ensino-aprendizagem. Pois, são frequentemente utilizados em curso de graduação em Odontologia para o estudo da anatomia, histologia dental, treinamento pré-clínico em dentística, endodontia, prótese e também para as pesquisas científicas. Entretanto, mesmo com essas inúmeras utilidades, a valorização das unidades dentárias ainda é um fato pouco considerado, principalmente, pelos profissionais atuantes nos serviços público e particular, vinculados à área (FREITAS et al., 2010).
Os dentes extraídos e manipulados de forma inapropriada apresentam grande potencial de contaminação. Assim, faz-se necessário desinfetar, esterilizar e armazenar os dentes, garantindo o uso de forma segura dos mesmos. Pois, é de conhecimento que o dente quando extraído, possui resíduos periodontais, sanguíneos e salivares, que podem armazenar patógenos, como o vírus HIV, vírus da hepatite B, além de bactérias (MOREIRA et al., 2009; POLETTO, 2010).
Diante do exposto, o objetivo desse trabalho foi traçar estratégias de conscientização para equipes de saúde bucal, compostas por cirurgiões-dentistas e, principalmente, auxiliares e técnicos de saúde bucal que trabalham nas Unidades Básicas de Saúde de Feira de Santana. Pois sabe-se que a manipulação inadequada de dentes extraídos é uma conduta preocupante pelo desrespeito à lei, pelos riscos de infecção cruzada e, consequentemente, de disseminação de doenças, constituindo-se, sobretudo, em mais um agravo para a saúde pública.
Material e métodos
Foi realizado o levantamento das Unidades de Saúde que ofereciam o atendimento odontológico, através de contato telefônico, selecionando-se aquelas que apresentavam equipe de saúde bucal formada e estivessem localizadas próximas à Universidade Estadual de Feira de Santana. Além disso, realizou-se levantamento bibliográfico, confecção de material informativo, visitas para apresentação do projeto, agendamento, divulgação e distribuição de cartazes e folders, entrega de potes para armazenamento de dentes e termos de doação. O público-alvo foram os profissionais da Odontologia e áreas afins, ou seja, cirurgiões-dentistas, técnicos e auxiliares de saúde bucal, com atuação na zona urbana do município de Feira de Santana. Em paralelo, foi realizada uma capacitação para auxiliares de saúde bucal, com o tema “Biossegurança no consultório odontológico e manipulação de dentes extraídos”.
O levantamento apontou que há 103 unidades de saúde, e dessas 53 possuíam atendimento odontológico, selecionou-se então 7 unidades de saúde, segundo critérios previamente estabelecidos. No entanto, duas das sete unidades não estavam com equipe de saúde bucal atuando no momento da visita. As unidades foram: US Feira VI/Papagaio, US Campo Limpo II, Centro de especialidade Odontológica do George Américo, Unidade de Saúde da Asa Branca II e Unidade de Saúde da Asa Branca II.
Posteriormente, a cada visita, foram recolhidos os termos de doação assinados e os potes com dentes extraídos para doação ao BDH, os quais foram desinfetados, separados de acordo com a anatomia e armazenados em potes com água em geladeiras, para posteriormente, emprestar os elementos dentários aos acadêmicos e docentes da UEFS.
Resultados e discussão
As atividades contribuíram significativamente para a arrecadação de dentes, contabilizando um total de 443 unidades dentárias, o que possibilitou a reposição do estoque do Banco de Dentes Humanos da UEFS. No entanto, a pandemia do novo coronavírus (COVID-19) inviabilizou a coleta de dentes em todas as US selecionadas. Entretanto, tendo em vista a grande quantidade de dentes arrecadados, houve uma resposta inicial bastante positiva às estratégias de conscientização pelas equipes de saúde bucal. Além disso, houve a capacitação para técnicos e auxiliares, que revelou a existência de lacunas no conhecimento sobre a existência e a importância de um BDH. Desse modo, faz-se necessária a continuidade desta experiência a longo prazo, para observar se os novos hábitos foram, de fato, incorporados à rotina das unidades de saúde. Ou seja, uma reciclagem contínua por meio de estratégias de conscientização direcionadas às equipes de saúde bucal, o que fortalece o papel da extensão universitária e do BDH, ao propiciar um olhar diferenciado aos problemas e às soluções para as lacunas existentes (SILVA et al., 2018).
É pertinente salientar que um BDH preserva, antes de tudo, a saúde dos acadêmicos e docentes, além de trazer contribuições éticas e legais na captação dos elementos dentários junto à comunidade, para fins de ensino (COSTA et al., 2017). Assim sendo, a experiência de traçar estratégias de conscientização colabora para o fortalecimento do BDH, bem como para a mudança de postura da equipe de saúde bucal atuante nas Unidades de Saúde, no que diz respeito à biossegurança e à bioética.
Apesar das limitações, como por exemplo: dificuldade de deslocamento, falta de material de consumo ou ausência de equipe de saúde bucal em algumas US e a pandemia do COVID-19, buscou-se promover mudanças de hábitos pelos profissionais, visando o esclarecimento sobre as doações ao BDH e o manejo dos resíduos biológicos nos serviços de saúde. Por conseguinte, ao ampliar o entendimento, os profissionais reveem a rotina clínica quanto ao manuseio incorreto de dentes que podem gerar infecções cruzadas, oriundas da presença de patógenos radiculares e periodontais remanescentes, e os riscos ou exposição ocupacional a que estão sujeitos (DEMENECH et al., 2017). Portanto, é imprescindível que as instituições de ensino tenham um BDH regulamentado para desenvolver ações extensionistas, pois grande parte da população, ou mesmo as equipes de saúde bucal, desconhecem a importância de um banco de dentes humanos, sobretudo, da doação de unidades dentárias.
Considerações finais
Conclui-se que as estratégias de conscientização dos profissionais de Odontologia e equipes auxiliares presentes nas unidades de saúde possibilitam a compreensão da importância do manejo adequado dos dentes após a extração, bem como da sua doação legal ao BDH. Por sua vez, o Banco de Dentes Humanos ao realizar as etapas de desinfecção, esterilização, armazenamento e empréstimo das unidades dentárias, evita os riscos à saúde pública e o descumprimento de preceitos éticos, e ao mesmo tempo promove o desenvolvimento do ensino e da pesquisa.
Referências
COSTA, S.M. et al. Banco de dentes humanos: legalidade, ética e biossegurança. Rev. Intercâmbio, Montes Claros, v. 8, p.1-15, 2017.
DEMENECH, L.S. et al. Avaliação de métodos de manutenção da esterilidade do órgão dental humano extraído para armazenamento em banco de dentes. Revista da ABENO, v.17, n.3, p.55-6, 2017.
ENDO, M.S. et al. Importância do banco de dentes humanos: relato de experiência. Arch Health Invest. v.6, n.10, p.486-490, 2017.
FREITAS, A. B. D. A de et al. Uso de dentes extraídos nas pesquisas odontológicas publicadas em periódicos Brasileiros de acesso online gratuito: um estudo sob o prisma da bioética. Arq. Odontol, v. 46, n. 3, p.136-143, Jul./Set., 2010.
MOREIRA, L. et al. Banco de dentes humanos para o ensino e pesquisa em Odontologia. Revista Fac. Odontol., Porto Alegre. v. 50, n.1, p.34-37, 2009.
POLETTO, M. M. et al. Banco de dentes humanos: perfil sócio-cultural de um grupo de doadores. Rev. Gaúcha Odontol., Porto Alegre, v. 58, n.1, p.91-94, Jan./Mar., 2010
SILVA, D. P. et al. Conhecimento dos cirurgiões-dentistas sobre Banco de Dentes Humanos. Revista da ABENO.v.18, n. 2, p. 20-6, 2018.
